Carta às pedras

ou daquilo que não cria limo

Leandro Muniz e Maura Grimaldi 



 

É domingo de manhã e, depois de semanas cinzentas, faz sol, o que alegra minhas plantas e também a mim, que, embora seja saturnino, preciso da energia solar. Impressionante como os acontecimentos climáticos rebatem na vida, desde a organização das cidades até os humores. Nesse sentido, acho curiosa sua escolha em lidar com pedras: além de assunto recorrente na arte e na literatura, as diversas expressões com essa palavra, ou as diferentes abordagens sobre esse tema, mostram como o objeto condensa diferentes possibilidades de interpretação, da psicanálise aos estudos sobre a formação do universo. Lembro da Denise Ferreira da Silva falando que a matéria das estrelas é a mesma dos nossos corpos. 
 

O tema tem me levado a pensar sobre o binômio particular x universal, que é a estrutura básica do pensamento ocidental. Não existe “A pedra”. Cada uma é o resultado singular de múltiplas interações materiais ao longo do tempo e em cada uma condensam-se diferentes fluxos. Olhar para elas tem me levado a sedimentar desejos e ações. Pensar na temporalidade estendida de formação de uma pedra me acalma em relação aos pequenos conflitos da vida ou à velocidade do atual estado das coisas. 


Essa é terceira vez que trabalhamos juntes e me lembrei do dia em que nos conhecemos, em uma mostra que eu organizava em 2017. Você comentou que era "uma exposição para quem gosta de arte". Nesses processos, me admira seu esforço por criar métodos precisos e entender as dinâmicas dos lugares de circulação do seu trabalho. Estamos falando de pedras porque gostamos de arte e de como ela pode criar conexões entre essas diferentes interpretações do fenômeno que falei antes, introduzindo, ainda, o elemento da imaginação, uma das maiores potências políticas do nosso campo. 


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tento recuperar de onde nasceu a vontade de trabalhar com a geologia enquanto objeto e método. lembro de querer compreender a teoria da stone-tape que parecia conter o mesmo mistério que o disco de ouro gravado do voyager. sempre fui arrebatada por isso. talvez pela perda de escala espaço-temporal. talvez por sua capacidade de nos impelir a uma exigente tarefa de imaginar.


a pedra é a possibilidade de recusa. a primeira arma. a violência e auto defesa. ela é hermética à soberba humana - como disse wislawa szymborska em conversa com a pedra.


mas elas já estavam presentes nos meus registros fotográficos nos primeiros anos do curso de artes plásticas. acho que recuperavam a reflexão sobre as histórias das paisagens. e olhar para a historiografia da paisagem é dar-se conta das histórias das nossas próprias corpas e formas de narrar. 


quando te chamei. você me deu uma pedra fundamental. ganhei da sua boca o termo que faltava para enredar a multitude de interesses que permeavam o universo pétrico para o qual olhava: polissemia. não apenas porque recuperava o método aplicado na construção dovídeo-dotexto-dosdesenhos-dosencontrosocorridos mas porque deixava ver o grau de construção de uma palavra e — por que não? — das coisas. 


ainda sobre polissemia: plurivocalidade e multitude como estratégias que associo à construção da narração. para mim esses diálogos constituem-se como um vozerio. essa ficção carrega o lastro da documentalidade. os diálogos do filme partem de um texto ainda maior. escrito em forma dramatúrgica. mas que mescla diferentes gêneros literários. foi construído de forma coletiva. mesmo que os seus participantes não tomassem consciência do processo. e também de forma coletora. uma vez que trata-se da reunião de fragmentos apropriados ao longo de dois meses de vivências e conversas durante uma residência artística. 


ecoou nos olhos e ouvidos que "estamos falando de pedras porque gostamos de arte e de como ela pode criar conexões entre essas diferentes interpretações do fenômeno". ao final. é porque gostamos de narrar. e gostamos de gente. humanos ou não.


denise foi uma interlocutora importante durante a elaboração desse filme. o conceito de não-localidade parece ir em um dos pontos estruturantes dessa narrativa lítica. talvez porque a ideia do bloco errático. aquele que desliza. que viaja. que se deforma em contextos. faz-me conectar não-localidade > bloco errático > indeterminação de gênero > trânsitos linguísticos. colocando os termos em relação. deixo aqui o glossário erótico-geológico coletado das escavações.


se somos feitas da mesma matéria das estrelas. também somos líticas. 


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No exato instante em que pensei em você, o e-mail chegou. Ouvia Mr. Sun, que é outra dessas narrativas que espelham paisagem e sujeito, em um trânsito constante. Uma subjetividade interpessoal, transtemporal e em fluxo.  


"esse percurso faz-me conectar não-localidade > bloco errático > indeterminação de gênero > trânsitos linguísticos" — talvez pela potência de negatividade desses conceitos. "Ao clamar pelo toque, não pretendo inventar nenhum conceito. Mas pôr em relação certos sentidos que parecem recuperar em nosso corpo uma sabedoria mineral", é uma ideia do meu amigo Tarcisio Almeida. Mas, no seu trabalho, essa relação parece operar por outro sentido: não pela decomposição da definição que um conceito pressupõe, mas por múltiplos contatos entre conceitos vindos de diferentes áreas. Basta ver o glossário. 


Sim, somos líticas. Cálcio nos ossos, ferro no sangue e por aí vai. Cuidar para não ter pedra nos rins, descalcificar sensações, solidificar sentimentos.Temos que fugir da dicotomia do pensamento ocidental que vê a natureza como objeto. As pedras dançam e nós somos pedras também. E se pensarmos seu movimento como alternativa ao consumo frenético de coisas, pessoas, imagens, experiências? 


Nossa playlist pedras, rochas e seixos tem músicas como Geni e o Zepelim, com essa coitada apedrejada em praça pública; Like a rolling stone e o tom existencial da gente perdido na indeterminação do mundo; Como uma pedra a rodar e essa maravilhosa capacidade da cultura brasileira de fazer versões; If you hold a stone que é uma alusão ao trabalho pedra e ar (stone and air), da Lygia Clark; Stone free; Con la misma piedra; Solid as a rock; Pedra e areia; e, claro, Pedra que não cria limo. Histórias de infância, corações partidos e o tempo entrelaçados em uma mesma dinâmica. 


O Górgona é outro vídeo seu que está geneticamente ligado ao saxa loquuntur — as pedras falam... Nele, os cotovelos são seios, os joelhos beijam e um punho cerrado pode ser um coração. Demoro a saber o que está por trás da sombra, não sei se por conta da matéria do vídeo, da relação com a legenda ou dessa angústia que surge quando não podemos classificar as coisas. É uma pedra ou polvo camuflado? Um mineral ou um pedaço de bacon? Perguntas apenas multiplicadas no segundo trabalho… A paleta pálida gera um embaralhamento temporal e uma imagem que parece uma paisagem distante revela-se na escala da mão. Nas imagens de pedras com cortes retos, fica evidente como elas guardam e são paisagens. Outro corte que me espanta é a pedra avermelhada, meio músculo, meio gordura, em contraste com o fundo verde que acentua a sensação carnal. 


Suas pedras recusam, mas no saxa loquuntur elas são bem presentes, diferentemente do Górgona. Se há fragmentos deste naquele — as mãos que desenham a sombra na parede ou mesmo o processo da trilha— as imagens de imagens me fazem pensar que, na sua prática, há uma diluição de bordas entre “pesquisa” e "produto". Uma notícia, um mapa, um outdoor, uma pintura e uma vitrine aparecem em sequência, desierarquizadas, o que me leva a algo que você falou em alguma conversa: dessaturação. 


Como em tantas outras decisões do trabalho, você optou pelo negativo. Falar das pedras é sua maneira de falar do momento atual: sua mutação lenta não responde à velocidade da vida prática; sua órbita, nos lança para a grande dança do tempo; se, materialmente, devem ser as coisas mais presentes na Terra — no Universo?— , seus sentidos simbólicos permitem tratar de associações múltiplas em torno de experiências como sexualidade, funcionamento psíquico, disputas territoriais e políticas. Diaspore. Diásporo. Pedras com dois poros, porosas, diásporas, estrangeiras. Pedras são cartas.


Há também o diálogo com a geóloga, entre outros agentes que informam o vídeo. "Fazemos arte porque gostamos de pessoas" e porque queremos conversar em uma relação de tempo e espaço que ultrapassa nossos limites lógicos. Desde uma conversa com os mortos — o seu interesse por materiais como o 16mm leva a essa reflexão — até o futuro. E estamos conversando. Tudo é parte do trabalho —o modo de fazer, o modo de tornar público, o modo de discutir—, ou, melhor: prática. Você também tem internalizado o diálogo como metodologia


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a decomposição chamou a minha atenção. 


a agregação e desagregação das pedras. a sedimentação relaciona-se apesar de classificado como fenômeno distinto. falamos dela como um método para nosso diálogo. o texto construído lentamente para acompanhar o vídeo. mas e se buscássemos a similitude entre sedimentação e decomposição?  


durante minhas pesquisas encontrei um mineral que os cientistas consideram inédito. ele é a associação de elementos da indústria petroquímica com sedimentos minerais. desses processos de reconstrução - fusão de camadas e apodrecimento de materiais - surgem outros. multicompostos. 


os plasti conglomerados me fazem pensar nos sambaquis apesar de serem um assustador testemunho da produção industrial e da forma humana-predatória. a ideia do depósito está latente em ambos. ainda que sua relação com o meio guarde diferenças abismais.


há certo tempo que privilegio a materialidade fílmica. ela arrasta consigo uma dimensão de obsolescência e sobre isso tenho refletido. talvez porque essa matéria e a imagem técnica me convidem a refletir sobre a velhice. assim como as pedras. não casualmente o filme se encerra com as duas mãos trocando uma pirita.


os materiais para os filmes são custosos e seu tempo é desacelerado. o que me interessa. estou cada vez mais comprometido com essa desaceleração. fazer menos. em mais tempo. respeitar o tempo das coisas. sobretudo a coisa chamada corpo. 


as filmagens e captações são em 16mm. o processo de edição e montagem é através de dispositivos digitais. o filme poder sobreviver em outros canais retira um pensamento mais cuidadoso sobre o corpo da imagem. mas ganha na sua pulverização. 


a música para o saxa loquuntur parte da experimentação de hannes fessmann que tem uma investigação com música e pedra. um estudo que já era produzido por seu pai. trata-se de uma música microtonal a partir de peças de mármore cortadas em formas particulares para a melhor propagação das ondas. hannes obtém as notas ao umedecer as mãos e gerar atrito sobre a superfície do instrumento —  é portanto o som que sai da pedra. 


quanto ao diáspora/o é uma das camadas mais densas e ainda sem conclusão. talvez porque pense nisso todos os dias. porque fale nisso todos os dias. porque viva a imigração. quem imigra sai em busca de uma ideia de futuro. mas qual? só se sabe depois que se chega e que se vive. “por que tantos brasileiros estão deixando o país?”. o perfil de quem migra é diversificado. é a aposta de construir uma estrutura material e política. é também possibilidade para algumas corpas. é um processo que cobra. é ser estrangeire. é ter que reconstruir um mundo. há quem tenha o privilégio de imigrar. há quem não tenha outra opção a não ser imigrar. 


essa reflexão permanece. 


solicita o tempo da decantação.

 

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Leandro Muniz (São Paulo, 1993) atua como artista e curador.  Formado em artes plásticas pela USP, é assistente curatorial no MASP. Foi repórter na revista seLecT entre 2019 e 2021 e fez parte do grupo de estudos Depois do Fim da Arte, coordenado por Dora Longo Bahia. Já expôs em espaços e projetos como o Museu de Arte do Rio, Casa de Cultura do Parque, Galeria Aura, DAP Londrina, Espaço das Artes USP, Sesc, Fábrica Bhering, Casa Alagada, Ateliê397, entre outros. Foi curador das mostras Pulso (Bica plataforma, 2021), Torrente (Galeria Karla Osório, 2020), Esquadros (Partilha, 2020), migalhas (Galeria O Quarto, 2019), Lampejo (Galeria Virgilio, 2019), Disfarce (Oficina Cultural Oswald de Andrade, 2017), entre outras. Seus textos podem ser encontrados em publicações e portais como Arte que acontece, Relieve Contemporáneo, Terremoto e Revista Rosa, além de catálogos e exposições. Ministra regularmente cursos e conferências em espaços como MASP,  Pinacoteca, Plataforma Zait e EBAC.
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Maura Grimaldi dedica-se à pesquisa e à prática artística, abordando assuntos relacionados à fantasmagoria, às tecnologias obsoletas, à arqueologia e geologia das mídias. A partir da experimentação com dispositivos óticos diversos, Maura busca refletir sobre a economia da atenção e as formas de subjetivação na contemporaneidade. Entre suas principais exibições e projetos destacam-se:  residência espaço Utopiana em Genebra (Pro Helvetia / COINCIDENCIA South America / Swiss Art Council 2021), a individual “The work appering in your memory is not mine” (Galeria Virgílio, 2018); programa de acompanhamento crítico PIMASP (MASP, 2016/2017); residência HANGAR (Lisboa, 2017); PIVÔ Pesquisa (Sao Paulo, 2017); VI Bolsa Pampulha (Belo Horizonte, 2016); XI Residência Red Bull Station (Sao Paulo, 2015); residência no Centro de Arte Jardim Canadá - JACA (Belo horizonte, 2014); a exposição “A vanguarda está em ti” (Coimbra, 2014); residência artística na École Supérieure des beaux-arts TALM-Tours (França, 2013); I Mostra do Programa de Fotografia 2012/2013 (CCSP, 2012) e a exposição “Esquinas” ( MAC USP, 2012). 

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