03.

Quando criança costumava concentrar os raios de luz através de uma lente escolar barata - o suficiente para fazer sair uma fina e pequenina linha de fumaça da queima da grama do pátio. Era um gesto ínfimo que fazia uma criança tomar tamanha fascinação pelo imprevisível e suspeitar de um grande poder atrás daquele fato.

04.

Lanternas óticas, lanternas absconsas, lanternas de imagem, lanternas do medo, megalográfica, taumatúrgica, lanternas vivas, lanternas giratórias, lanternas de bruxa, lanternas furta-fogo são apenas alguns dos termos para designar as primeiras tecnologias projetivas.

 

Segundo o teórico alemão Friedirich Kittler, elas cumpririam a função de reprodução ou transmissão de imagens, e claro, de mensagens. Cada qual já sugerindo uma utilidade específica, sendo agenciada por uma categoria social, e já nos induzindo à interpretação de três modalidades de discurso relacionadas aos aparelhos projetivos: o mágico, o científico e o corporativo (EISENHAUER, 2006).

Na introdução de seu livro Mídias óticas, redigido a partir de um curso ministrado em Berlim em 1999, Friedrich Kittler apresenta a lanterna mágica, ao lado da câmera escura, como um dos mais relevantes dispositivos para a história dos aparelhos óticos. Ambos estariam inscritos no mesmo processo que culminou no desenvolvimento da fotografia, do cinema e da televisão, a partir do século XIX e os desdobramentos no XX.

No capítulo exclusivamente para discussão da lanterna mágica, Kittler percorre os primeiros relatos sobre a sua existência, como consolidou-se enquanto mídia e os seus impactos na cultura ocidental do século XVII, especialmente no uso feito pelos jesuítas. Se por um lado esse aparelho assemelha-se fortemente ao princípio técnico da câmera escura, suas histórias guardam particularidades.

Compreendendo a lanterna mágica como tributária das lanternas furta-fogo, cujo o uso oficial era destinado aos campos de batalha, mas também foram utilizadas em caças ilegais, Kittler defende a sua especificidade devido ao seu desígnio de “simular o movimento”.

(...)

De forma sucinta, apesar de muito ter circulado como forma popular de entretenimento, o surgimento da lanterna mágica dispunha de um programa militar por trás. Ou seja, sua função primária seria a de servir como um aparelho de comunicação que garantisse certa proteção e que dificilmente pudesse ser interceptado por inimigos.

(...)

Por fim, o texto conclui em Athanasius Kircher (jesuíta, 1601-1680) operando na divulgação da mensagem cristã através de recursos que poderiam ser lidos como artificiosos e ilusórios, mas que apesar disso, foram admitidos devido à “capacidade de transmitir informações ópticas e assim provocar efeitos militares e religiosos em seus receptores” .

Uma das mais importantes análises presentes no livro Mídias Óticas é relacionar como o uso dessas lanternas estava vinculado às ações da Contrarreforma. Para Kittler, a Reforma protestante dependia da lógica proporcionada pelos adventos de Gutenberg, seus sistemas de reprodutibilidade gráfica e indiretamente pela perspectiva linear, e também da câmera escura. Lembrando a condenação à “veneração de imagens de santos” e a ideia das escrituras como fonte de autoridade máxima, ambas defendidas por Lutero:

A Reforma havia abolido ou, literalmente, enegrecido o ritual eclesiástico medieval com todo o seu brilho óptico em pelo menos metade da Europa e o substituíra pelo mistério monótono das letras impressas em preto e branco. Sola scriptura, sola fidei – somente pela Escritura e somente pela fé. [...] A outra parte da Europa devia tomar alguma medida estratégica contra essa tinta bíblica negra – e inventou, como os senhores sabem, a chamada Contrarreforma. Isso significava, em primeiro lugar, a propaganda da fé e a ordem dos jesuítas da qual faziam parte Athanasius Kircher e Kaspar Schott, praticantes da lanterna mágica, além do padre Shall, propagandistas da perspectiva.

(KITLLER, 2016; 102)

Para concluir a discussão, seria assim a lanterna mágica um dos recursos midiáticos capaz de afrontar o “monopólio reformado da impressão do livro” :

[...] o que a Contrarreforma contrapôs à nova mídia protestante do livro impresso: um teatro ilusório para todos os cinco sentidos, sendo que em todos os exercícios o sentido óptico ocupava o primeiro lugar, juntamente com uma prática de leitura para leitores que não se atinham à letra e experimentavam seu significado imediato como alucinação sensual. Em outras palavras, a busca de uma mídia capaz de se opor à Bíblia de Lutero trouxe de volta as antigas imagens religiosas, agora transformadas ou intensificadas – não mais como ícones ou pinturas nas paredes de alguma igreja, não mais como miniatura religiosa em uma hagiografia compreensível até mesmo para uma criança, mas como visões psicodélicas capazes de motivar os soldados de Cristo (como os jesuítas se autodenominavam) de modo muito mais eficaz, isto é, inconsciente, do que as obras-primas da pintura antiga.

(KITLLER, 2016; 104)

Após relembrar as estratégias do teatro jesuíta, momento histórico também recuperado por Siegrifried Zielinski, outro importante teórico das mídias alemão, em sua obra Archäologie der Medien: Zur Tiefenzeit des technischen Hörens und Schens de 2002, Friedrich Kittler adentra nas intersecções da lanterna mágica com o universo da literatura e a pintura.

Finalmente, avança no século XVIII e XIX para falar sobre as relações entre o aparato e o universo do ocultismo e dos fantasmas, relacionando ao “desejo de uma tecnologia cinematográfica” .

(...)

Registro de obra do artista Francis Alÿs.

 

 

05.

“Rio de Janeiro, desde 2013

Coletivo Projetação

projetacao.org

O coletivo Projetação foi um dos muitos grupos que surgiram no Brasil no ano de 2013, a partir das manifestações que ocuparam e mobilizaram todo o país. Formado em sua maioria por mulheres, o coletivo reúne diferentes tipos de profissionais (designers, comunicadorxs, arquitetxs, médicxs, advogadxs, entre outrxs). Em suas intervenções, o grupo ocupa as paredes das cidades com frases políticas, críticas e irônicas, para falar dos seus desejos e reivindicações.

Armados com um projetor, um computador e um gerador, eles projetam nas fachadas, nas árvores, nos carros da polícia ou em qualquer superfície disponível, palavras e frases de ordem que emergem da multidão que caminha. Como trabalha com a projeção de luz, a intervenção pode acessar lugares nos quais as faixas ou o spray não podem (pelo menos não com a mesma agilidade), construindo assim uma intervenção móvel que gera reflexão por meio de um discurso de resistência, ocupando o imaginário das pessoas que estão ali, mas também ocupando as imagens que derivam daquelas ações.

As intervenções do coletivo servem como uma forma de comunicação para as pessoas, militantes ou não, para trazer informações antes, durante e depois dos atos. Constituem também uma forma de se criar uma mensagem que possa ser veiculada pelas próprias empresas de mídias, como as emissoras de TV, na medida em que estampam em grande escala suas reivindicações. O Projetação está ainda envolvido com os processos de lutas e protestos urbanos em várias partes do mundo, projetando mensagens em apoio a causas internacionais, como, por exemplo, a ocupação na Palestina, a repressão aos movimentos sociais da Espanha e a luta do povo mexicano. As ações fomentam a solidariedade a todos os presos políticos do mundo, não importa de que país.

O grupo intensificou suas ações nas manifestações de 2013/2014, porém suas lutas não estão apenas focadas nas questões relacionadas à Copa do Mundo ou às Olimpíadas no Brasil.

Os problemas sociais brasileiros são a principal motivação do coletivo: a repressão policial, a violação de direitos humanos, a ameaça às liberdades individuais e a criminalização dos pobres são temas nos quais eles estão envolvidos. O grupo também faz uma crítica aos nossos modelos de representação política, pois percebem que estamos submetidos a sistemas representativos que não nos representam e, por isso, buscam a produção de formas autônomas de se fazer política em prol das lutas sociais que são mais urgentes.

 

Sua obra é uma comunicação direta não-violenta que busca diminuir os muros existentes entre as diferentes formas de pensamento. Com isso, o trabalho do Projetação se propõe a “gerar segregação mínima e reflexão máxima”.

Fragmento de texto extraído de:
Campbell, Brígida Arte para uma cidade sensível / Art for a sensitive city /
Brígida Campbell; tradução para o inglês Valéria Sarsur e Pedro Vieira - São Paulo, Invisíveis Produções, 2015. 320 p. : il.

É possível consultar o material online no link: https://arteparaumacidadesensivel.wordpress.com/obras/ projetacao/

Projeção sobre AT&T Long Lines Building (Nova Iorque) elaborada por Krzysztof Wodiczko em 1984. ​