Aperte após ver a pedra preta - Unknown Artist
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Lisboa, 04 de novembro de 2018 - Galeria FOCO & Da Luz Collective)

The work appearing in your memory is not mine

Maura Grimaldi

Intro:

Agradecimentos: Da Luz Collective, Galeria Foco, Bruna Castro, Josefa Pereira, Alison Powell e a todos os amigos e convidados

Quando fui convidada para estar aqui presente, questionei-me sobre a validade tanto das minhas recentes pesquisas quanto do meu fazer enquanto artista e civil. Questionei-me do porquê trazer as minhas palavras para esse momento público. Em princípio o projeto LightBox “surge da necessidade de reflexão sobre jovens artistas radicados em Portugal, que utilizam a luz como meio (...)”. É um projeto que “deseja estimular e fomentar o discurso sobre a arte atual, interações com os média e outros aspectos relacionadas às práticas das arte contemporânea.

 

Como então, eu poderia iluminar essa discussão e torná-la relevante? Reexibir o filme recém-chegado em minha produção ao lado de breves notas parecia ser um início.

 

Este vídeo integrou a exposição homônima ocorrida em uma galeria no Brasil em agosto desse ano. O projeto tentava reunir reflexões que venho recolhendo pelo menos desde 2014 e que relaciona os dispositivos técnicos de produção de imagem com discursos à margem das práticas científicas ou circunscritas entre as práticas da razão e do oculto.

 

Remontar a experiência da exposição como um todo seria tarefa inviável para a atual ocasião. Entretanto, elucidar os pontos nevrálgicos através de algumas peças refeitas - como o tecidos e a luminária, bem como reexibir o filme, mesmo que diante das condições ideais - parecia fazer sentido.

* * *

The work appearing in your memory is not mine

 

The work appearing in your memory is not mine é a minha primeira experimentação com a manipulação de películas cinematográficas. Confesso, não tenho experiência ou domínio profundo na linguagem do cinema, mas sempre estive próxima aos materiais e às discussões que tangem os suportes fotográficos, e muito atenta à dimensão da projeção de imagens ou simplesmente da luz.

 

Ainda no início desse ano, antes da produção dos trabalhos, eu vinha coletando um apanhado de artistas, situações, e momentos históricos que fizeram uso da projeção da luz e os seus instrumentos como discursos de persuasão de cunho militar, religioso e/ou político. Tal pesquisa seria formalizada em um breve ensaio artístico para uma plataforma brasileira. Era momento de recuperar aquele trabalho que há muitos anos não me saia da cabeça, e aproveitar para retomar o contato com uma antiga amiga.

 

Eu escrevi:

 

Dear,

 

Hope this email finds you well.

 

Don't know if you are going to remember, but we met at São Paulo in 2012 etc. etc. etc. etc. etc.

 

I have a vague memory of an action you once showed in a talk in the context of FAAP's residence. Something about a group of demonstrators who synchronized mirror reflections to reach governing authorities during a voting session. 

 

Well, I'm not sure if my memory works well, but if maybe you have the reference about it, and so on...

 

Ela respondeu:

 

Dear Maura, 

 

Of course I remember you!

 

First of all I think I will have to disappoint you, the work appearing in your memory is not mine... 

 

 

O email era longo, mas minha atenção parou naquela frase. Foi um choque de frustração tamanho o erro da memória. Sobre o erro, optar por uma película 16mm sem nunca antes tê-la manipulado foi abrir-se ao risco do lapso. E tais erros são gatilhos para uma experiência da imaginação pautada na livre associação. O olhar é induzido a figurar aquilo que é simplesmente uma matéria em degeneração.  É também uma forma de jogar com o tempo, emular documentos, falsear os momentos históricos.

 

Difícil não pensar nas experimentações das vanguardas surrealistas. Difícil não pensar na experimentação dos objetos do neoconcretismo brasileiro. Difícil não pensar no cinema e sua história.

 

O filme deambula sem constituir-se como uma narrativa ou se comprometer com tanto. Uma possibilidade para a dispersão. Talvez mais do que isso, uma possibilidade para a improdutividade e para um espaço de quebra de um tempo-sistêmico. Originalmente essa é uma obra para ser exibida com um mobiliário produzido especialmente para o filme - um puff. Um local onde o espaço do corpo possa permanecer em repouso e possa permanecer o mais distante da vigília[1].

 

Estar afastado da vigília pode ser ato de impertinência à produtividade. Pode ser ato de impertinência ao modus operandis mais previsível. Pode igualmente ser estado de abstenção da consciência. Pode ser um estado de entrega. Pode ser estar desacordado. Pode ser um estado de suscetibilidade à influência. 

 

A respeito de estar sob influência gostaria de retomar uma literatura cara a esse percurso.

 

Adolfo Bioy Casares foi um importante escritor argentino de ficções fantásticas ao longo do século XX. Conhecido por seu célebre romance A Invenção de Morel, que inspirou obras como O Ano passado em Marienbad de Resnais e uma versão atualizada na série para a televisão Lost, Casares tem uma vasta produção de contos. Através da fantasia de forte caráter realista, o escritor constantemente aborda os dispositivos técnicos e problematiza a tecnologia como formas de interação com o oculto. Em Los Afanes, publicado originalmente em 1962 na coletânea El lado de la sombra, o autor nos apresenta uma breve narração de um grupo de amigos desde a infância, todos apaixonados pela forte e supostamente intransigente figura de uma mulher, Milena. Entre os amigos destacava-se Heller, um prodigioso inventor que se tornaria o companheiro de Milena. Ao desenrolar da trama descobre-se que aquilo que se entendia como um problema de relações humanas era na verdade os efeitos de uma máquina influenciadora criada pelo cientista amador. Heller foi capaz de abandonar sua vida em corpo para seguir vivendo enquanto pensamento em sua máquina. Transferiu a sua existência para o seu instrumento. “Parece que influyó muchas veces en el pensamiento de todos nosotros” diria o narrador do conto. Com passagens que transitam entre as práticas espíritas e a ficção cientifica, Casares desenvolve uma estranha rede que nos faz questionar sobre a autonomia da nossas ideias e como estamos constantemente suscetíveis aos dispositivos que nos rodeiam.

 

Casares não foi a única influência, tampouco a mais forte. Na realidade foi através dos estudos do teórico Stefan Andriopoulos, professor do Departamento de Línguas Germânicas da Columbia University e autor do livro "Possuídos: crimes hipnóticos, ficção corporativa e a invenção do cinema" publicado pela University of Chicago Press em 2008, que fui redirecionada para a biografia de Franz Anton Mesmer. O mesmo que inspirou a palavra mesmerizada, também sinônimo de fascinada, hipnotizada, encantada, magnetizada.

 

Franz Mesmer foi um médico alemão do século XVIII que se interessou por astronomia e teorizou sobre uma tal energia de transferência que ocorreria naturalmente entre corpos animados e inanimados. Atribuiu a essa energia o nome de magnetismo animal, também conhecido como mesmerismo. Mesmer formou-se em medicina pela Universidade de Viena, e 1766 publicou a sua tese sob o título de A Influência dos Planetas no Corpo Humano.

 

Além de médico e praticante do magnetismo animal, Mesmer também foi um dos mais célebres intérpretes da harmônica de vidro[2], um instrumento musical que deve ser tocado através do friccionar dos dedos sobre as bordas de cúpulas de vidro, sendo cada cúpula destinada a uma nota. Mesmer chegou a utilizá-la como parte do seu tratamento vinculado à doutrina mesmérica.

 

O médico também foi o responsável por apresentar tal instrumento ao compositor Wolfgang Amadeus Mozart, que escreveu em vida algumas peças para a harmônica.

 

O desejo frustrado de trazer uma Glassharmonica original para o espaço expositivo no Brasil, tarefa impossível em um país que não guarda um exemplar sequer desse instrumento, foi substituído pelo deslizar dos dedos em taças de bebidas corriqueiras.

 

A trilha foi inteiramente baseada no desejo de remontar os sons hipnóticos e vítreos para acompanhar a vida dos objetos. Gravada a partir da performance sonora realizada ao vivo no dia 11 de agosto, dia da abertura da exposição e primeira projeção do filme, a composição foi uma parceria entre mim e o músico brasileiro Décio Gioeilli.

 

A música que ouvimos agora é exatamente aquela que tocamos.

*

 

Por falar naquilo que estamos a ouvir... Acho importante ressaltar que todas essas notas que aqui apresento foram esboçadas antes do dia 28 do mês passado. As referências muito antes disso, uma vez que fazem parte do repertório da exibição ocorrido meses atrás.

 

Tais referências, nesse momento, ganham um outro estatuto diante da atual conjuntura.

 

Para aqueles que não estão familiarizados com a situação, introduzo aqui o complexo cenário. O Brasil diante de uma eleição cujo candidato favorito guarda consigo discursos explicitamente racistas, homofóbicos, autoritários, violentos, prestando suas homenagens a uma das figuras mais tenebrosas da tortura durante a ditadura militar no Brasil. Um candidato sob forte suspeita de criar sistemas de manipulação de dados de redes sociais e emissão em larga escala de notícias falsas. Uma eleição complexa para ser debatida e estudada, mas sem dúvida a que mais disputou os dados pessoais dos eleitores mediante o uso das redes. Dificilmente poderíamos pensar em alguma eleição nos últimos anos que não tenha sido marcada pela manipulação da informação e da psique humana, mas sem dúvida essa a mais atordoante e paranoica para o lugar de onde venho.

 

Sob a tensão, o corpo dificilmente escapa ao estado de alerta. Dificilmente repousa. Dificilmente desloca o sonho para um outro lugar, se é que sonha. Dificilmente escapa dos diálogos que vão além da realidade mais presente. Não há conversa que não seja mediada pelos atuais acontecimentos. O medo instaurou-se em muitos corpos, e sobreviver era e é resistir.

 

Escrevo isso antes do dia 28, antes da conclusão. E digo que independente dos resultados, muito já foi perdido. Junto, a assustadora e crescente força de um pensamento atroz e opressor que ameaça as liberdades individuais e coletivas.

*

 

Bem...

 

Enquanto eu puder imaginar que os dedos úmidos que tocam a borda de um copo em um sutil gesto de fricção circular, na pressão precisa, nem tão forte, nem tão fraco, nem tão rápido, nem devagar, pode ser mais do que emitir um som, vou garantir pra mim a subjetividade e o erotismo enquanto resistência.

 

Enquanto for possível alucinar na levitação e criar um momento de quebra da narrativa, imaginaremos outros mundos possíveis. Será possível sobreviver. Romper com a ordem do corpo-que-cai foi ilusão emprestada das cenas de Tarkovski em O Sacrifício, o casal que levita em sua cama.

 

Levitar, capacidade de contrariar a ordem mais absoluta do peso do corpo. Capacidade jamais dissociada de uma imaginação. E é precisamente sobre a imaginação que as instituições autoritárias operam.

 

Em meio das milhares de análises que li nas últimas semanas, há uma frase que ainda reverbera em minha cabeça “Jamais se esqueçam que a primeira vitória da opressão é sobre a subjetividade (...). é preciso resistir primeiro nas pequenas coisas do cotidiano[3].

 

Repito. Quando fui convidada para estar aqui presente, questionei-me sobre a validade tanto das minhas recentes pesquisas quanto do meu fazer enquanto artista e civil. Questionei-me do porquê trazer as minhas palavras para esse momento público.

 

Parece-me que é preciso escapar ao bruto da realidade que muitas vezes surpreende a própria ficção. Imaginar a falta de peso dos objetos. Imaginar o brilho das pedras. Imaginar que um rasgo na película cinematográfica é um pequeno pássaro que voa descontroladamente. Imaginar que virar o jogo é possível, e sobretudo, que alucinar é necessário.

 

[1] Sobre essa discussão veja também “24/7 – Capitalismo tardio e os fins do sono” de Jonathan Crary.

[2] O desenvolvimento da harmónica de vidro deveu-se ao trabalho de Benjamin Franklin em 1761. A ideia surgiu a partir do copofone, que é um conjunto de copos de cristal que é tocado friccionando os bordos com os dedos ligeiramente umedecidos.

[3]“Como resistir em tempos brutos” de Eliane Brum.

 https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/08/opinion/1539019640_653931.html

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